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ANTENA FLUMINENSE DE NOTÍCIAS

Notícias e atualidades

CRISE ECONÔMICA GERA SURTO DE SUICÍDIOS EM PORTUGAL.

por Cimberley Cáspio, em 12.09.15

Por Catarina Gomes- editado p/ Cimberley Cáspio

 

Imagem:congregar.web317.kinghost.net

 

Há largos anos que as taxas mais altas de suicídio em Portugal surgem sobretudo associadas à região Sul do país, sobretudo ao Alentejo, mas um estudo recente, que analisa o fenômeno ao nível dos municípios, mostra que os suicídios aumentaram no centro e no interior Norte de Portugal junto à fronteira com Espanha. Os problemas estão acontecendo nas zonas rurais e nas áreas mais pobres.

 

Os autores do estudo científico Suicídio em Portugal: determinantes espaciais num contexto de crise econômica, que foi publicado na revista científica Health & Place no final de Agosto, analisa duas décadas de taxas de suicídios em Portugal, divididos em três períodos de tempo: 1989-1993, 1999-2003 e 2008-2012. Este último já inclui o período de crise, assinala o estudo que faz remontar o seu início a 2009.

 

A coordenadora do estudo, a geógrafa Paula Santana, nota que encontraram uma relação entre o suicídio e os municípios “com maiores graus de privação material e social”, medidos através do chamado “índice de privação material”. Este indicador junta a taxa de desemprego, a taxa de analfabetismo(percentagem de pessoas com mais de 10 anos que não sabem ler ou escrever) e más condições de habitabilidade (traduzidas na percentagem de casas sem banheiro). Ou seja, “independente ou além das características individuais de cada um, o local onde se vive pode influenciar atos de suicídio”, explica o artigo. Nos municípios com maiores níveis de privação o risco de suicídio é de mais 46% do que no grupo dos municípios mais afluentes.

 

O trabalho não estabelece uma relação causal entre a crise e o aumento dos suicídios mas não deixa de notar que, enquanto entre os dois primeiros períodos de tempo houve um decréscimo de 5,4% nos suicídios, a comparação entre o segundo período e o último dá conta de um acréscimo de 22,6%. “Os padrões recentes de suicídios podem resultar do atual período de crise”, escrevem os autores.

 

O que a crise pode ter trazido “é o agravamento destas condições nos municípios”, nota Paula Santana, investigadora do Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Coimbra. Refere-se, por exemplo, que uma das consequências da aplicação das medidas de austeridade foram os cortes nos apoios ao transporte de doentes para os hospitais.

 

Os dados mostram também que quem vive em zonas rurais tem maior risco de suicídio. O “índice de ruralidade” agrega a densidade populacional (numero de pessoas por km2), a acessibilidade a hospitais (tempo necessário para ter acesso a uma unidade), e a percentagem da população rural. Se é verdade que já era nos espaços rurais que havia mais suicídios nos dois primeiros períodos de tempo estudados, essa associação intensificou-se, sublinha a investigadora. “A investigação conclui que as padrões de suicídio Norte/Sul esbateram-se mas a divisão entre espaços urbanos e rurais intensificou-se”, o que é mais notório nos casos de suicídios de homens do que de mulheres.

 

O aumento do suicídio em zonas rurais pode ter vários fatores explicativos, entre eles “o isolamento social, o estigma em relação a perturbações mentais (especialmente nos homens), o fácil acesso a pesticidas tóxicos e dificuldades econômicas”. Ao mesmo tempo, refere-se que, com a crise, pode ter havido um aumento da dificuldade destas populações em ter acesso a antidepressivos e a serviços de saúde mental. Embora os autores também tenham constatado que nas zonas urbanas se encontraram “importantes bolsões de pobreza”, o que exige da autoridade pública abrir facilidade para um maior acesso aos serviços e redes de suporte social, tendo mesmo assim, as áreas urbanas resistido mais à crise do que as rurais.

 

“As características dos locais de residência têm um efeito relevante no comportamento suicidário a nível local”, escrevem os autores, que recomendam então “a alocação de recursos para os locais onde existe maior concentração de suicídios nestas áreas particulares do Portugal rural.

 

O interior alentejano continua a apresentar um risco muito alto de suicídio, mas nos mapas incluídos no trabalho nota-se que, de 2008 a 2012, os maiores aumentos das taxas maiores de suicídio incluem municípios rurais do distrito de Bragança junto a Espanha, assim como o interior e o centro do país.

 

O diretor do Programa Nacional para a Saúde Mental, o psiquiatra Álvaro Carvalho, constata que o estudo “mostra uma relação dos suicídios com a crise”. No diagnóstico precoce de situações de depressão, “em situação de crise não é com antidepressivos e psicoterapia que se resolvem os problemas, pode-se amenizar o desespero”. O médico sublinha que é “com medidas concretas que levem à redução do desemprego é que se pode alterar o estado de humor das pessoas. A solução não está na saúde mental, está na segurança social, no desenvolvimento de programas ativos de criação de trabalho”.

 

Fonte: Público-Comunicação SA / Portugal