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ANTENA FLUMINENSE DE NOTÍCIAS

Notícias e atualidades

FORÇAS ARMADAS BRASILEIRAS PROVARAM NA FRONTEIRA "QUE O BURACO É MAIS EMBAIXO".

por Cimberley Cáspio, em 25.02.14

Por Silvio Ferraz

reprod.e editado p/Cimberley Cáspio

 

 

imagem: shelf3d.com

Foto : Antonio Milena

 

A maioria dos brasileiros está acostumado a ver as Forças Armadas apenas em desfiles citadinos, com armas limpas e, em geral, ultrapassadas. Vê-las em ação, com armamento moderno, táticas de combate eficientes, apoiadas por alta tecnologia, é algo novo,que aconteceu de verdade.

 

Em 26 de fevereiro de 1991, 40 guerrilheiros das Farc atacaram um destacamento de fronteira em que estavam 17 soldados, em Querari, no Amazonas, no meio do caminho entre a chamada região da Cabeça do Cachorro e do município de Tabatinga, perto do Rio Traíra.

 

Neste ataque os guerrilheiros mataram 3 soldados brasileiros e dois garimpeiros colombianos que estavam detidos na guarnição, e houve ainda diversos feridos entre os soldados. No momento do ataque das FARC, a guarnição estava almoçando. Os primeiros a morrerem foram as sentinelas da hora, em seguida os guerrilheiros atacaram o refeitório rudimentar onde um militar e os dois garimpeiros almoçavam, todos no acampamento ou morreram ou foram feridos no confronto.

 

O ataque foi composto por 3 equipes, sendo uma de apoio que ficou do lado boliviano, uma de ação e uma terceira de segurança e scol (que mataram as sentinelas).

 

Em retaliação ao ataque,foi planejado um ataque inicial de Ação de Comando a base inimiga,denominada OPERAÇÃO TRAÍRA,composta por militares do Batalhão de Forças Especiais,que realizaram um ataque surpresa à base inimiga,matando 12 guerrilheiros, capturando outros, recuperando armamento e equipamento,desencadeando a partir daí, uma caçada geral aos restantes dos guerrilheiros por parte dos militares brasileiros com a infantaria de selva, apoio aéreo de helicópteros e aviões, em conjunto com o exercito colombiano, deflagrando a fase 2 da OPERAÇÃO TRAÍRA,onde diversos integrantes das FARC foram mortos.

 

Fotos Antonio Milena

Comandos ocupam Querari. Pista é protegida por
especialistas em luta na selva

 

A pedra que faltava ao mosaico do general Luiz Gonzaga Lessa, comandante do Comando Militar da Amazônia, caiu em meio à reunião de Estado-Maior em Manaus. Um rádio do posto de Querari, um dos mais extremos da região conhecida como Cabeça do Cachorro, fronteira do Brasil com a Colômbia, informava que guerrilheiros colombianos planejavam fazer uma provocação aos brasileiros. O alvo dos guerrilheiros seria tomar a cidade colombiana de Mitú, a 75 quilômetros da fronteira com o Brasil. E para conseguir seu objetivo, os guerrilheiros teriam de ocupar uma pista de pouso militar no lado brasileiro.

 

Segundo relatos ouvidos pelo general Lessa, a guerrilha colombiana planejava também roubar munição, armamentos e remédios dos postos fronteiriços brasileiros,onde então o general Lessa aproveitou o que seria uma manobra conjunta das três Armas (Exército, Marinha e Aeronáutica), planejada há muito tempo, para fazer uma operação de intimidação da guerrilha do país vizinho.

 

Movimentando os 5.000 homens sob seu comando, o general lacrou parte dos 1.644 quilômetros de fronteira com a Colômbia. Jatos AMX, turboélices Tucano, foguetes e metralhadoras quebravam o silêncio da selva num rugido sob medida para mostrar que o lado brasileiro da selva não é a casa da sogra. "Não tiram um palmo sequer do nosso território", assegurou Lessa.

 

Além das tropas, a manobra acionou 39 aviões e uma parafernália de instrumentos de controle de voo e hospitais de campanha que, enviados por quartéis de diversos pontos do país, chegaram rapidamente à fronteira. Tudo funcionou com precisão.

 

No relógio do general Lessa os ponteiros marcavam 2 horas da madrugada do dia 27 de outubro. Éra a hora H do Dia D. Da Base Aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, decolaram quatro caças a jato AMX. Pela primeira vez atuaram na remota região de fronteira, e para ganhar autonomia, reabasteceram em pleno ar, a 100 quilômetros de Brasília. Aviões de treinamento Tucano, adaptados para combate, saíram de Boa Vista e Porto Velho. Ainda do Rio de Janeiro, 240 homens das forças especiais, a elite da elite dos paraquedistas , embarcaram em dois Hércules. Durante o voo, de sete horas e trinta minutos,foram  informados da missão e receberam instruções. Destino: Açaí, nas vizinhanças de Querari, o provável alvo dos guerrilheiros.

 

A mobilização foi liderada pelos batalhões de Infantaria da Selva, sentinelas avançadas do Brasil na mata, tropas cujas técnicas de combate na selva são estudadas até pelo Exército americano. Enquanto tudo isso acontecia, outros dois Hércules da Força Aérea Brasileira aterrissaram em São Gabriel da Cachoeira.Estruturas de aço, cabos, antenas de radar foram desembarcados. Um corpo de engenharia iniciou a construção de uma torre de controle para orientar o enxame de aviões de transporte, caças e helicópteros que fariam daquele aeroporto perdido na Floresta Amazônica, às margens do Rio Negro, uma base operacional. Do outro aparelho saíram mais caixas. Em minutos, um compressor de ar inflou um imenso casulo de borracha. Dentro dele foi montado o centro de controle de voo, com uma bateria de computadores e radares ligada aos satélites de meteorologia e comunicação.

 

O Comando Militar da Amazônia é uma força de 25.000 homens treinados para guarnecer 12.100 quilômetros de fronteira do Brasil com sete países. Depois do primeiro,um segundo e eventual ataque da guerrilha colombiana ao território brasileiro é considerado pelo Estado-Maior uma possibilidade real. O Serviço Secreto do Exército já identificava sinais de que partes do território brasileiro eram consideradas objetivos militares dos insurgentes colombianos. O maior foco de preocupação eram os novos comandantes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc, organização militar marxista que à época  dominava 40% do território do país. Eles queriam voltar à carga contra a fronteiriça Mitú, onde num tempo recente, a guerrilha ocupou a cidade por alguns poucos dias. Perdeu-a ao custo de pesadas baixas.

 

Paraquedistas  do Exército colombiano usaram a pista brasileira como apoio, criando um incidente diplomático. Numa futura ação contra Mitú, parecia claro para o Exército que os guerrilheiros tentariam antes tomar a pista brasileira para impedir a ação das tropas aerotransportadas colombianas.

Tucanos chegam atirando

sobre alvos na fronteira:

100% de acerto

 

No campo diplomático, é fato que a guerrilha não queria saber de confusões com os brasileiros. Já as teve com o Peru e a Venezuela. Do Brasil queria, no mínimo, neutralidade. Tem até escritório em Brasília, e seu comandante supremo à época, Manuel Marulanda, o "Tiro Certo",  enviou emissários a cinco governadores brasileiros em busca de reconhecimento,porém na selva, no entanto, a realidade é outra. Para os jovens comandantes das Farc, um contingente que reúne entre 12.000 e 15.000 guerrilheiros, o que se impõe é não deixar dúvidas de que são eles que mandam. Já o conseguiram formalmente em uma parte do território de tamanho equivalente ao da Suíça, promovendo um dos maiores êxodos da atualidade, e por onde passaram, obrigaram 700.000 pessoas  abandonarem a própria casa. De 1985 para cá, esse número alcançou 1,5 milhão de pessoas, considerada pelas autoridades internacionais como a terceira maior migração forçada do mundo, só perderia em sofrimento coletivo para os desmontes sociais do Sudão e de Angola.

 

Para tornar a situação ainda mais volátil, age também na região o pequeno mas atuante Exército de Libertação Nacional, ELN, que, como as Farc, é financiado pelos barões da cocaína, e como se não bastasse, outra praga: os brutais paramilitares de extrema direita, armados até os dentes pelos fazendeiros temerosos da guerrilha. Os mercenários promovem as maiores atrocidades em busca de minas de ouro e plantações de coca.

 

A Colômbia vive sob fogo cruzado há quase meio século, uma tradição que já recebeu o nome familiar de "La Violencia". Evidentemente, do ponto de vista militar, a região é vista como um poço permanente de problemas em potencial. Mesmo que não tenha efetivo para tomar e manter largas porções do território brasileiro, o método de atuação da guerrilha assusta. Os guerrilheiros vivem em conluio com o narcotráfico e sua motivação deixou de ser política. Agem como uma quadrilha rica e bem armada.

 

Pelas razões expostas acima, as Forças Armadas brasileiras são obrigadas a manter um portentoso esquema dissuasório ao longo das fronteiras amazônicas. Periodicamente, é preciso colocá-lo à prova. E foi  isso que o Exército, a Aeronáutica e a Marinha fizeram. A fronteira com a Colômbia ficou fechada desde São Joaquim até Vila Bittencourt. Toda a Cabeça do Cachorro se encontrou isolada. Um muro de armas e homens em plena selva amazônica. Patrulhas brasileiras reviraram a  floresta e rios na fronteira. A ordem era atirar para matar, à menor resistência, caso encontrassem guerrilheiros.

 

A parte mais crítica da manobra foi a proteção ao campo de pouso que se julgava o alvo mais provável da guerrilha. Essa parte da operação ficou a cargo dos comandos brasileiros que chegaram em aviões Hércules. Sobre Açaí, uma aldeia de índios tucanos, 120 paraquedistas saltaram com mochilas e 60 quilos de armamento pesado. Jogaram-se de 2.000 metros em salto livre. Só abriram seus parapentes retangulares pretos a pouco mais de 200 metros do solo, para evitar a dispersão. Ao tocar o solo, cada Rambo brasileiro livrou-se do equipamento de voo e embrenhou-se na floresta. Seis horas mais tarde, os comandos atingiram as vizinhanças da pista. A ordem de atacar não demorou. Rajadas de metralhadoras deixaram uma nuvem densa e azulada na área. Em pouco tempo, os comandos deram a pista como liberada. Informados pelo rádio do sucesso da missão, os soldados do Quinto Batalhão de Infantaria de Selva chegaram a bordo de uma esquadrilha de helicópteros negros do Exército. Em seguida, aproximaram-se os deselegantes mas eficientes aviões de transporte Búfalo. Rolaram 200 metros de pista e despejaram mais 170 homens. Caso se tratasse de uma operação de combate real, a pista teria sido retomada pelos brasileiros.

Tropas voaram do Rio até a fronteira em 7h30. Saltaram

em queda livre e retomaram Querari em horas

 

Ao final, a avaliação dos militares era de que nossas forças haviam mostrado as garras de modo bastante convincente. Ficou demonstrado que, ao cabo de poucas horas, as Forças Armadas do Brasil conseguiram lacrar centenas de quilômetros da fronteira mais frágil do país,onde o trânsito de pessoas cruzando alguns pontos desse limite é intenso. Índios brasileiros têm parentes na Colômbia e vice-versa. Comerciantes realizam viagens de abastecimento a Manaus e sobem o Rio Negro até atingir o Rio Uaupés. Presume-se que o tráfico de armas para a guerrilha também siga essa rota. O Exército mantém ali uma tropa em que o contingente de índios quase predomina.

 

Com o uniforme da Infantaria da Selva, índios das tribos tucano, macu, dessano, curipaco, cubeu, guanano e baniua misturam armas modernas com mortíferas zarabatanas. Suas setas, impregnadas com curare nas pontas, matam em três segundos, sem fazer ruído. Técnicas de guerrilha vietcongue foram assimiladas e adaptadas pelo Exército brasileiro às condições da selva amazônica. "Temos de sobreviver com o que a natureza nos dá", ensina um oficial. Armamentos, munição, alimentos e remédios são estocados em imensas covas em meio à floresta, encobertas com folhas, galhos e cipós. Cada coluna de soldados que lá se abastece deixa para a próxima sinais de sua passagem por ali. Um nó em um cipó, uma forquilha virada para baixo em um galho de árvore. A dissimulação é levada a extremos. Nos postos de fronteira, intrincada rede de túneis subterrâneos garante a segurança. Em caso de ataque, soldados, sargentos e oficiais tomam posição em ninhos de metralhadoras pesadas, camufladas no terreno.

 

O importante é que a "mensagem foi passada de forma clara,transparente,eficiente e letal",o que fez com que de lá pra cá,nunca mais se soubesse  de invasões das FARC em território brasileiro, e muito menos de ataques a militares brasileiros.

 

Fonte: revista VEJA

 

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